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História da vida dos autistas e das pessoas
ao redor deles:
Ruth conta a sua história de vida junto à
Tatiana
Meu nome é Ruth, e tenho uma filha autista,
a Tatiana. Nos seus 8 meses, percebi que a Tati, como a chamamos, era
um bebê diferente, não se aninhava no colo, não segurava
a mamadeira, ficando horas olhando para um determinado lugar, com o olhar
parado, absorto, não chorava e não virava no berço.
Num domingo, minha mãe me rodeou o dia inteiro para me dizer que
a Tati estava muito atrasada no seu desenvolvimento, e que eu precisava
levá-la a um médico. Tudo isso, eu já sabia, só
não aceitava. A Tati teve vários diagnósticos dos
9 meses até os 3 anos – durante 2 anos levava a Tati na AACD
para fazer fisioterapia e terapia ocupacional. A Tati sentou quando tinha
2 anos e 3 meses, e começou a andar arrastando o bumbum, apoiando-se
com as mãozinhas – isso me deixava muito triste. Deu seus
primeiros passos quando havia completado 5 anos, muito deselegante, com
os braços abertos para se equilibrar, chegava até a ser
cômico, mais foi uma festa – tudo o que havia sido feito na
AACD e as minhas preces, meu rogo ao papai do céu, tinha tido êxito,
pois tudo isso foi com muito sacrifício, pois meu marido era alcoólatra,
não aceitou a Tati e logo faleceu deixando eu, meu filho Júnior,
que é mais velho que a Tati 2 anos e 8 meses, e a Tati. O Júnior,
apesar de ser pequeno, me ajudou muito, quase não teve infância,
me acompanhando nas minhas andanças com a Tati – foi um menino
maduro e muito responsável. Aos 3 anos a Tati teve o diagnóstico
de autismo severo, feito pelo Dr. Raymond Rosemberg (psiquiatra). Eu nunca
havia ouvido falar em autismo, mas através de livros emprestado
pelo doutor e assistindo palestras, tomei conhecimento, entre aspas, sobre
o assunto. A AMA foi fundada em 8 de agosto de 83 e a Tati começou
a freqüentar no dia 14 de maio de 84, quando começou a funcionar
a escola nos fundos de uma igreja evangélica, no Jardim Miriam,
no tempo que ainda andava de bumbum. A AMA teve vários progressos,
com muita luta, e ajuda da sociedade em geral. Eu trabalho na AMA como
voluntária desde o começo. Me sinto orgulhosa de ter colocado
alguns tijolinhos. Hoje, a AMA tem uma sede linda e a Tati, com seus 22
anos já tem 17 de AMA. A Tati é uma jovem muito graciosa,
tem olhos bonitos, uma boca muito bem feita e uma carinha de menina, pois
com seus 22 aninhos mede 1,53m de altura e pesa 42 quilos. Eu respiro
meus filhos: Tati e Júnior, e a AMA, não saberia ficar longe
dela. Tenho 63 anos e uma vontade imensa de continuar dando minha ajuda
à entidade.
Ruth
mãe da Tatiana
Felipe e seus pais
As dificuldades de definir e encarar um diagnóstico
de Autismo
Meu filhote, hoje com 5 anos (temos outros dois
filhos, um de 7 e outro de 2, todos meninos), iniciou a andar com 9 meses
(sem apoio) e falou com mais ou menos um ano e meio, tipo aga (aguá),
momm (mãe), didi (Adilma, a babá)...e coisas do gênero.
Sempre teve um comportamento diferente: fixação em vídeos
infantis (estórias da Disney), jogava os brinquedos, falta de atenção,
agitação, movimentos estereotipados com as mãos (as
quais sempre olhava fixamente), gritos desconexos, adorava água
(com dois anos já não mais se afogava na piscina), sem medo
de locais perigosos, equilíbrio extraordinário (graças
a Deus, isso já o salvou de tombos horríveis). Com dois
anos, a linguagem não teve continuidade; pelo contrário,
não mais falava coisas que pudessem ter significado; começou
aumentando os movimentos estereotipados, não desenvolvia o aprendizado
básico de uma criança da sua idade, muita dificuldade de
convívio com outras crianças e adultos, utilização
constante do nosso corpo como se seu fosse (uso das mãos para pegar
coisas). Visto isso, procuramos, inicialmente, ajuda de uma fonoaudióloga
para iniciar a fala; não deu certo. Ele não gostava dela
e não atendia às expectativas de progresso. Procuramos um
neurologista (famoso na minha cidade) que achou que ele tinha depressão
e prescreveu até um desses remédios violentos, antidepressivos
(o qual na primeira dose suspendi, pois meu filho colocou sangue pelas
narinas); fomos à psicologa recomendada pelo mesmo médico,
o qual diagnosticou que o Felipe tinha um atraso de fala, um pouco anormal
para a idade em razão de ser hiperativo. Bolas, até aí
o Felipe já estava com três anos, e ninguém falava
em autismo. Pois bem, consultamos nova médica neurologista, a qual
finalmente diagnosticou o autismo (a qual também o acompanha até
hoje); iniciamos, assim, a via crucis de tratamento: vitamina B6, terapia
ocupacional/psicoterapia, atendimentos psicológicos, etc. Aos quatro
anos decidimos procurar um médico "expert" em autismo,
tendo a AMA nos recomendado o Dr. Rozemberg (dentre uma lista de três
outros médicos excelentes, com certeza). Depois de confirmar o
diagnóstico (aí sim aceitei de vez) este nos fez, com toda
a proficiência que lhe é peculiar nessa área, várias
recomendações comportamentais (em termos de família),
terapêuticas e outras orientações corriqueiras. Seguimos
nosso caminho, acompanhados, agora, por dois médicos (a médica
local e o Dr. Rozemberg), um piscoterapeuta ocupacional (também
acho que encontramos a pessoa certa) e acompanhamento psicológico.
Felipe ainda participa de uma escola em turma de jardim "normal"
(lógico que ele é diferente no meio dos outros), mas com
professores preocupados em acertar (seguindo a orientação
médica e terapeutica) e faz natação, o que ele adora
(nada, sem perfeição, mas como um "peixinho").
Agora, aguardamos novas orientações do Dr. Rozemberg sobre
o uso do Secretin, pois decidimos somente utilizá-lo após
novas experiências e confirmações médicas,
que creio, o Dr. deverá trazer quando regressar do congresso de
autismo nos EUA em outubro próximo. Sabemos dos percalços
que teremos que seguir e preparamos a família para isso. Fazemos
terapia com o mesmo terapeuta (eu, minha esposa e o meu filho mais velho,
este tem muita dificuldade de compreender o irmão, tendo raiva,
vergonha, ciúme....) e participamos de um grupo de pais de autistas
e psicóticos infantis na fundação Pestalozzi de Niterói/RJ.
Já percebemos que o "problema" não é só
nosso, outras pessoas também o têm (e às vezes até
piores), o que nos conforta e impulsiona nossa vontade de acertar. O que
mais me comove é ver que pessoas com baixos níveis de instrução
e dificuldades financeiras não sabem como conseguir ajuda para
os seus casos; por exemplo; nesse grupo de pais, talvez eu e minha esposa
tenhamos o melhor nível cultural e financeiro do grupo (diga-se
que somos classe média, o que não é muito já
que está em "extinção"). Com isso tenho
vontade de desenvolver, a partir desse grupo, uma associação
embrionária, de maneira a esclarecer, orientar, divulgar alternativas,
encaminhar a profissionais, etc , mas ainda não sei como fazê-lo
(mas tenho certeza que vou conseguir). Vejam vocês. que poucos (ou
melhor, pequena parcela da população brasileira) têm
acesso à internet. É, realmente é dificil....Se não
tivermos iniciativas locais "nossas crianças" terão
um futuro muito ruim.
8 de julho de 1999
As Manias do Guilherme
Acho que algo comum em todas as pessoas autistas
são as manias.
Eu tenho um irmão autista, o Guilherme.
Ele tem 18 anos. Nossa! Ele já é um homem!
Mas o Gui, pra nós da família ainda
é uma criança. Sempre vai ser. Imagino que em muitas famílias
com autistas aconteça o mesmo. A gente ainda tem que cuidar dele
o tempo todo, porque ele vira o vidro de xampú, ataca a geladeira,
se suja, tira a roupa... Apesar de às vezes parecer que ele está
se divertindo, não podemos deixar, pois imagine só qual
não é o constrangimento se você está num parque
de diversões, por exemplo, e um cara desse tamanho tira a roupa.
Por causa da deficiência, ele não tem essa noção
do que pode, do que não pode. O que ele está acostumado
a fazer dentro de casa não há motivos por que ele não
faça em público.
Ele adquire manias engraçadas que vem
e vão com o tempo. Por exemplo, ele já teve a mania de encher
a boca de arroz e assoprar e, frente à irritação
dos presentes, rir debochadamente.
Já teve a mania de atirar uma peça
da louça no chão; outra vez pegou a mania de morder as pessoas
(e nessa época ele era menino e tinha uns caninos afiadíssimos!).
E quando ele gostava de ficar na posição
de feto, assim, encolhidinho, apertadinho. Nessa época ele sempre
se metia dentro do balaio de roupa suja, dentro da secadora de roupa.
Quando ele entrava na secadora era um desespero pra saber onde ele estava.
Mas passou um pouco o tempo, ele cresceu, e um dia que entrou dentro do
balaio não conseguia mais sair. Tivemos que fazer um rasgo no balaio,
de cima a baixo, para que ele pudesse sair.
Contando hoje é muito engraçado.
Mas essas manias, além de não terem sentido e serem apenas
sintomas de seu distúrbio, às vezes são muito perigosas,
como quando não tínhamos grades nas janelas: ele saiu da
janela do sobrado pro telhado e caiu na garagem do vizinho. Ninguém
até hoje sabe como ele não quebrou um ossinho sequer.
Quer dizer, como ele não tem capacidade
de distinguir o perigo ou o comportamento inadequado, sempre estaremos
cuidando dele como uma criança.
(1997)
Mariana Mello
irmã de Guilherme
Eduardo
Com 6 anos, não responde quando uma criança
da idade dele chama pra brincar.
Aos dois anos de idade o Eduardo começou
a frequentar uma escolinha. Ele nunca se recusava a ir ou pedia a presença
dos pais na escola. Mas o seu comportamento chamava a atenção
porque ele não atendia quando era chamado, não brincava
com outras crianças e se comunicava muito pouco. Entretanto, ele
era carinhoso com as professoras e demonstrava entender o significado
de muitas palavras. Na maioria das vezes ele nem olhava quando alguém
falava o seu nome, como se fosse surdo. Mas na saída da escola,
quando o chamavam pelo microfone, ele imediatamente pegava suas coisas
e se dirigia ao portão. Nesta época só sabíamos
que ele era diferente. Após dois anos de consultas a vários
profissionais, ele foi diagnosticado como autista de bom rendimento.
Hoje Eduardo tem seis anos. Ele aprendeu a ler
sozinho, está aprendendo a escrever, mas ainda não se comunica
adequadamente.
Já consegue responder a perguntas simples,
dizer o que quer e o que não quer, mas aparentemente a sua compreensão
a respeito de idéias e conceitos mais abstratos é bastante
limitada. Até hoje ele nunca fez aquelas perguntas que todas as
crianças costumam fazer: "O que é isso ?" e "Por
que ?".
O seu comportamento social está evoluindo,
tornando-se mais aceitável, mas continua sendo estranho. Há
alguns dias, ele estava sentado no gira-gira de um parquinho e duas crianças
se aproximaram e sentaram perto dele. Perguntaram o seu nome e a sua idade,
e ele respondeu corretamente. Depois perguntaram se ele queria brincar.
Ele apenas olhou para as crianças, não falou nada, levantou-se
e foi embora.
A sua atitude em eventos sociais é bastante
peculiar. Percebemos que quando ele vai a locais onde a própria
organização do espaço demonstra o que vai acontecer,
ele se comporta melhor. Por exemplo, quando vamos a um restaurante, ele
se senta à mesa normalmente, mesmo que o local esteja cheio de
gente. Mas quando vamos a alguma festa ou a uma simples reunião
de família, logo que chega, ele procura se "esconder"
em algum local em que tenha poucas pessoas. Depois, aos poucos, ele vai
se aventurando a explorar o ambiente.
Helena Ho
mãe de Eduardo
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