Uma Investigação Longitudinal do Uso de Medicação Psicotrópica e Não-Psicotrópica entre Adolescentes e Adultos com Transtornos Globais do Desenvolvimento
A Longitudinal Investigation of Psychotropic and Non-Psychotropic Medication Use Among Adolescents and Adults with Autism Spectrum Disorders.
Journal of Autism and Developmental Disorders. Vol.39, No. 9, 2009.
Anna J. Esbensen
Jan S. Greenberg
Marsha Mailick Seltzer
Michael G. Aman.
Resumo e Comentário por Ms. Letícia Calmon Drummond Amorim e Rebeca Costa e Silva
Dentre todos os tratamentos e intervenções que são requisitados devido à diversidade de necessidades e comprometimentos das pessoas com Transtornos Globais do Desenvolvimento, a medicação tem um importante papel. Nos EUA a única medicação aprovada para o uso específico de pessoas com TGD com comportamentos-problema grave é a risperidona.
Existem relativamente poucos, mas crescentes estudos clínicos acerca da eficácia de medicação com esta população. Mais adiante, apesar de limitado também é crescente a pesquisa sobre medicação psicotrópica na população de pessoas com autismo. Outra questão é de que a maioria dos estudos foi e é realizada no delineamento de open-label trials, embora controlled trials. Também, a maioria dos estudos foca os efeitos da medicação em crianças e menos em adolescentes e adultos.
Metade a um terço da população de crianças com autismo recebe prescrição de ao menos uma medicação de qualquer tipo e aproximadamente 45 % recebem prescrição de medicação psicotrópica, tais como antidepressivos, estimulantes e antipsicóticos. Mas a medicação não psicotrópica também é prescrita em níveis altos para esta população, embora poucos estudos tenham examinado seus efeitos e sua prevalência. Há uma exceção para esta afirmação que são os anticonvulsivantes, em que 5% das crianças e 11-13% dos adolescentes e adultos com autismo utilizam pela vida inteira. O aumento na prática de prescrever remédios para esta população é influenciado pelo relacionamento complexo entre comportamentos-problema e psicofarmacologia. Outro detalhe é de que os sintomas e comportamentos de pessoas com autismo mudam com a idade o que implica em mudanças na medicação. Por este motivo, é necessário compreender as mudanças nos padrões de prevalência e uso de medicação em adolescentes e adultos com autismo.
A presente análise longitudinal é única porque examina as mudanças no uso de medicação em um período de 4 anos e meio[dois momentos do estudo maior foram utilizados para a coleta de dados; momento nº1: 1998-2000 e momento nº4: 2004-2005] em uma amostra da comunidade de indivíduos com TGD de 10 a 48 anos de idade no início do estudo. Para esta análise duas questões de pesquisa foram abordadas. Primeiro, questionou-se se o uso de medicação em adolescentes e adultos muda ao longo do tempo [examinou-se tanto a proporção de indivíduos sendo medicados quanto à quantidade de medicamentos tomados], como também se há diferenças entre os mesmos. A segunda questão foi determinar a chance de se iniciar ou encerrar o uso de medicação ao longo do estudo. E em ambas as questões examinaram-se a medicação psicotrópica e não psicotrópica separadamente.
A análise de dados relatadas neste estudo foi utilizada a partir de um estudo maior [também longitudinal] com outro enfoque. Parte da amostra morava em Massachusetts, EUA e outra parte morava em Wisconsin, EUA. Os dados foram coletados de 286 famílias. Os adolescentes e adultos tinham em média 21 anos de idade no início do estudo [mais da metade tinha entre 10 e 19 anos, ¾ era do gênero masculino e 2/3 morava com os pais]; a maioria dos participantes era caucasiano; todos tinham diagnóstico de alguma manifestação de autismo; a maioria tinha retardo mental e também alguma comorbidade.
Os medicamentos receberam duas classificações gerais: psicotrópicos ou não psicotrópicos. A categoria de drogas psicotrópicas recebeu subclassificações:
· Antipsicóticos--Risperidona;
· Antidepressivos--Sertralina;
· Ansiolíticos--Clonazepam;
· Sedativo-hipnóticos—Benzodiazepínicos e Barbitúricos;
· Estimulantes do SNC (Sistema Nervoso Central)--Metilfenidato; e
· Outros
E as não psicotrópicas:
Anticonvulsivantes--Fenobarbital; Medicações Contra Sintomas de Parkinson [estes eram administrados somente para tratar de efeitos colaterais de antipsicóticos, nenhum participante tinha Doença de Parkinson]--Biperideno;
Não foram analisados e/ou categorizados aqueles medicamentos que não necessitam prescrição médica.
O uso da medicação fora classificado da seguinte forma, e de acordo com dois grupos de faixa etária 10-19 anos ou 20 anos +:
A pessoa com TGD (1) recebia ou (2) não recebia alguma medicação psicotrópica; A pessoa com TGD (1) recebia (2) não recebia alguma medicação não psicotrópica; Quantidade de medicação psicotrópica sendo administrada; e Quantidade de medicação não psicotrópica sendo administrada.
Resultados
Dentre os medicamentos psicotrópicos, os mais comumente tomados no momento nº1 foram os antidepressivos e os antipsicóticos, sendo que os antipsicóticos atípicos foram os mais comuns para os adolescentes e os Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina (ISRS), como a Sertralina, para os adultos. No momento nº4 os ISRS foram os mais comuns para ambos os grupos.
Quanto ao número de indivíduos que tomavam medicações, no momento nº1 70% da amostra estava sob uso de medicação; no momento nº4 esta porcentagem aumentou para 81%; 24,1% tomavam tanto medicação psicotrópica quanto não psicotrópica no momento nº1, já no nº4 mais de 1/3 (33,6%) passou a tomar ambas.
Os sujeitos tomaram em média 1,6 medicamentos (de 0-8) no momento nº1 e a média aumentou para 2.4 (de 0-11) no momento nº4. O número de sujeitos que não tomavam alguma medicação no primeiro momento diminuiu durante o decorrer do estudo de 30,4 para 19,2%, e o número de indivíduos tomando três medicamentos ou mais aumentou de 24,5 para 40,6%.
Estes dados indicam um aumento no uso de medicamentos tanto psicotrópicos como não psicotrópicos nos adolescentes e adultos com TGD no decorrer do estudo.
Mais adiante, 15,4% (44) dos participantes começaram a tomar medicação no decorrer do estudo, mas somente 4,2% (12) que tomavam medicação no momento nº1 do estudo pararam de tomar qualquer medicamento no momento nº4. A maioria (199 ou 66,4%) foi medicada no momento nº1 e n nº4 e somente 15% (43) não estava sob uso de medicação durante esses dois momentos.
Quanto à medicação psicotrópica:
Começaram a tomar no momento nº1—12,6%; Pararam de tomar no momento nº4—4,9%; Estavam sob uso de medicação durante e em ambos os momentos—51,7%; Não estavam sob uso de medicação em nenhum dos momentos de coleta de dados do estudo—30,8%;
Quanto à medicação não psicotrópica:
Começaram a tomar no momento nº1—18,9%; Pararam de tomar no momento nº4—6,3%; Estavam sob uso de medicação durante e em ambos os momentos—30,8%; Não estavam sob uso de medicação em nenhum dos momentos de coleta de dados do estudo—44%;
Estes dados sugerem que os indivíduos com TGD que já estavam sob medicação raramente descontinuam o uso do mesmo no decorrer de um período de 4 anos e meio.
Discussão
Segundo o conhecimento dos autores deste estudo este é o primeiro estudo longitudinal da prevalência de prescrição de medicação em pessoas com TGD. Observou-se aumento no uso de medicação no decorrer do tempo tanto para adolescentes como para adultos, este estudo é também o primeiro a examinar a probabilidade de aderir ao ou cessar o uso de medicação.
Conforme mencionado anteriormente, existem bem mais estudos sobre os efeitos de medicação em crianças com autismo do que em adolescentes e/ou adultos. É possível que a proporção mais alta de uso de medicação em indivíduos mais velhos o que é consistente com a literatura em que há aumento no risco de novos transtornos psiquiátricos e de convulsões durante a adolescência; os participantes deste estudo apresentaram aumento em diagnósticos e convulsões no decorrer do estudo.
O aumento no uso da medicação pelos participantes no período de 4 anos e meio também é marcante visto que apresentaram redução significativa em comportamentos-problema. Uma questão para pesquisas futuras seria determinar até que extensão os comportamentos-problema se tornam menos prevalente devido à maturação ou devido ao uso da medicação ou devido a ambas as coisas, e, o impacto potencial de medicações psicotrópicas versus não psicotrópicas nas mudanças globais dos comportamentos-problema.
O uso de antipsicóticos atípicos se tornou mais comum no período de estudo condizente com relatos na literatura que tais medicamentos são utilizados para reduzir a irritabilidade, comportamentos-problema, e comportamentos estereotipados e repetitivos em pessoas com TGD, e são considerados mais vantajosos em relação aos antipsicóticos tradicionais em termos de efeitos colaterais. Outros medicamentos que se mostraram comuns, foram os antidepressivos ISRS, que pode refletir uma tendência crescente na prescrição de sintomas e transtornos de ansiedade nesta população, conforme relatos anteriores que sugeriam efeitos benéficos aos comportamentos estereotipados, autoagressão e obsessões. No entanto, o escopo de estudos que apresentam tais resultados é reduzido, e é possível que futuramente venham a ser invalidados. Observou-se que o uso de estimulantes do SNC foi reduzindo ao longo do estudo isto é condizente com o fato de que tais medicamentos têm sido mostrados não tão eficazes em pessoas com TGD comparado à população típica.
Há um aumento significativo na prescrição de diversos medicamentos para pessoas com TGD, mais especificamente na presente amostra de participantes, e isto sugere uma tendência crescente de polifarmácia, ou seja, o uso de diversas modalidades de medicamentos concomitantemente em um mesmo indivíduo.
Os dados deste estudo demonstraram que havia estabilidade considerável nos padrões de prescrição de medicação psicotrópica e não psicotrópica ao longo do tempo do estudo. Isto indica que uma vez que os adolescentes e/ou adultos iniciassem o uso de medicação era muito provável que continuassem a ser medicados. Esta probabilidade se mostrou mais acentuada para as medicações psicotrópicas (aproximadamente onze vezes mais provável continuar o uso de medicação do que descontinuar) do que para as não psicotrópicas (quase cinco vezes mais provável de continuar o uso de medicação do que descontinuar). Isto atesta o fato de que esses medicamentos não são curativos e que, uma vez que um tratamento medicamentoso se inicia, aparentemente há uma necessidade contínua (ou percepção de necessidade) de uso.
Algumas implicações decorrentes deste estudo são:
Implicação 1—A decisão de usar medicação muito cedo pode ser uma decisão que perdurará por muito tempo. Pode ser de alguma valia explorar outros tratamentos alternativos e/ou complementares, como a intervenção comportamental, por exemplo, para tentar evitar tratamento medicamentoso. No entanto, a aderência ao tratamento medicamentoso pode refletir a escassez de tratamentos alternativos
Implicação 2—Embora o uso de medicamentos psicotrópicos possa ser benéfico eles são acompanhados de riscos e efeitos colaterais/adversos; sendo assim, se fazem necessários programas psicoeducacionais para famílias de pessoas com TGD para ensinar aos pais sobre medicamentos e sinais e sintomas de possíveis efeitos colaterais.
Conclusão
Este estudo contribui para a compreensão do uso de medicamentos entre adolescentes e adultos com TGD. Dois temas centrais são proeminentes nos dados:
Medicação está cada vez mais prevalente, já que mais pessoas com TGD estão sendo medicadas e mais medicamentos são utilizados no decorrer do tempo. Uma vez que alguém adere ao tratamento medicamentoso, esta pessoa tende a continuar usando medicamentos
Estes dados são significativos visto que dão sustância empírica de que o uso de medicação é raramente descontinuado uma vez que é iniciado. A população de pessoas com TGD está cada vez mais sendo medicada e mais estudos se fazem necessários sobre os efeitos de medicamentos levando em consideração seus efeitos no decorrer da vida, ou seja, em diferentes momentos e faixas etárias.
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“Drogas psicotrópicas são aquelas que atuam sobre o nosso cérebro, alterando de alguma maneira o nosso psiquismo” Disponível em: http://www.unifesp.br/dpsicobio/cebrid/folhetos/drogas_.htm acessado às 08h25min de 09/11/2009.
Estudos controlados (com presença de grupo controle—sujeitos controle ou procedimentos controle que permitem comparação com os resultados experimentais Disponível em: http://www.medterms.com/script/main/art.asp?articlekey=2837 acessado às 10h5min de 09/11/2009)