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O que os pais podem fazer de objetivo para ajudar o seu
filho ou a si próprios?
R - Inicialmente, apesar de todo o sofrimento emocional eles devem encarar
e enfrentar o problema de frente. Como? Procurando ajuda profissional
especializada, competente, atualizada e séria. Como eles podem
avaliar isto? Perguntando, solicitando informações de outros
e, obviamente, também do profissional. Em outras palavras, nada
de cerimônias. Está em jogo o tratamento do seu filho. Além
disto, devem estar em contato com outros pais para troca de experiências
e vivências e com isto evitar a repetição de dificuldades,
erros ou problemas. A criação de uma Associação
de Pais e Amigos de Crianças Autistas tem surtido bons efeitos
em outros países, e à semelhança da APAE (Associação
de Pais e Amigos do Excepcional) pode permutar conhecimentos, pesquisas
e avanços nesta área. É crucial uma informação
adequada dos pais sobre esta doença. Estas associações
dão também uma sensação de coesão e
meta, com isto podendo-se pressionar órgãos governamentais
visando aos interesses destas crianças. Pode-se, também,
levantar fundos junto a empresas e pessoas físicas para ajudar
os menos favorecidos. A vantagem global da participação
dos pais nestas atividades é que isto lhes dá a sensação
de estar fazendo algo e não apenas esperando alguém fazer
algo por eles. Isto lhes mitiga a sensação de impotência
e inadequacidade. Também é importante a publicação
de literatura específica e periódica, assim como o convite
de especialistas para a troca de vivências e atualização.
O que é Autismo?(além da definição
do Dr. Gauderer, veja os complementos neste site)
R - Autismo é uma doença grave, crônica, incapacitante
que compromete o desenvolvimento normal de uma criança e se manifesta
tipicamente antes do terceiro ano de vida. Caracteriza-se por lesar e
diminuir o ritmo do desenvolvimento psiconeurológico, social e
lingüístico. Estas crianças também apresentam
reações anormais a sensações diversas como
ouvir, ver, tocar, sentir, equilibrar e degustar. A linguagem é
atrasada ou não se manifesta. Relacionam-se com pessoas, objetos
ou eventos de uma maneira não usual, tudo levando a crer que haja
um comprometimento orgânico do Sistema Nervoso Central.
É uma doença de fundo orgânico ou emocional?
R - Antigamente, supunha-se uma causa orgânica, mas com o avanço
da literatura psicanalítica surgiu a hipótese de que os
pais seriam, de certa maneira, os causadores desta problemática.
Atualmente, esta teoria caiu totalmente em desuso devido à enorme
gama de estudos científicos, documentando um comprometimento orgânico
neurológico central. O tratamento está, obviamente, centrado
nestas novas descobertas, conforme os artigos incluídos neste livro.
Esta mudança nos conceitos obriga a uma reformulação
teórica, difícil de ser aceita por certos grupos que até
então detinham o controle e o poder de tratamento destas crianças
e que se vêem ameaçados com estas novas descobertas. É
importante que os pais tenham conhecimentos atualizados para poderem questionar
ou escolher o tratamento adequado para seus filhos.
E os pais têm culpa?
R - Antigamente, a literatura psicanalítica formulava a hipótese
de que os pais eram "esquizofrenogênicos" ou do tipo "frio"
e causadores da problemática de seus filhos. Hoje em dia, este
conceito não é aceito, documentando-se nestas crianças,
conforme já foi mencionado, um comprometimento orgânico-neurológico
central. É claro que nenhum pai quer por vontade própria
ter um filho doente ou lesado. É claro, também, que existem
situações onde os pais interferem na evolução
adequada dos filhos, mas isto não ocorre no Autismo e o diagnóstico
diferencial é bastante fácil.
Por que o atraso do desenvolvimento?
R - Não se sabe exatamente todas as causas que levam ao Autismo,
conseqüentemente não se consegue explicar corretamente o porquê
do atraso do desenvolvimento. Sabe-se, porém, que ele é
devido a um comprometimento neurológico central, com alterações
no funcionamento de enzimas que levam as células cerebrais a não
funcionarem adequadamente, acarretando, quando comprometidas, problemas
diversos. Muitas pesquisas têm sido feitas nesta área e descobertas
importantes estão vindo à tona, para exatamente melhorar
e acelerar este atraso de desenvolvimento.
As crianças com Autismo têm atraso mental?
R - Infelizmente, cerca de 70 a 80% apresentam uma defasagem intelectual
importante. Cerca de 60% têm inteligência abaixo de 50 em
testagens de QI, 20% apresentam um QI entre 50-70 e apenas 20% têm
um QI acima de 70. A maioria mostra uma variação muito grande
com relação ao que objetivamente podem fazer e oscilam muito
de época para época. Não se sabe explicar exatamente
o porquê da associação entre Autismo e deficiência
mental, mas parece que o retardo mental está relacionado ao mesmo
problema básico que gerou o Autismo. Por outro lado, por não
conseguirem interagir adequadamente com o meio ambiente, aumentam ainda
mais a sua defasagem intelectual.
Qual a incidência desta doença?
R - Ela é baixa, acontecendo em cinco entre dez mil crianças
e é quatro vezes mais comum em meninos do que em meninas. Ela pode
ocorrer em toda e qualquer família, independente de seu grupo racial,
étnico, sócio-econômico ou cultural.
Irmãos podem apresentar esta doença?
R - Outrora, não se acreditava que isto poderia ocorrer. Estudos
mais recentes indicam que esta doença tem certas características
de herança autossômica recessiva. Existe a possibilidade
de um irmão apresentar algo semelhante. Porém, do ponto
de vista prático, esta possibilidade é muito remota.
Qual a diferença entre Autismo e esquizofrenia?
R - Existem autores que consideram Autismo uma forma precoce de esquizofrenia
(SCZ) infantil, outros são de opinião que constituem entidades
diversas. Pessoalmente, acho que existem mais dados confirmando a hipótese
de serem diferentes. O Autismo se manifesta antes dos três anos
de vida, a esquizofrenia mais tarde. No Autismo o comprometimento é
geral, inclusive motor, na esquizofrenia é especificamente na área
do pensamento. O sentir também está alterado, mas, enquanto
na SCZ só o relacionamento com pessoas não é adequado,
no autista o problema é mais global e abrangente. A história
familiar do autista não mostra, geralmente, outros parentes com
problemas psiquiátricos, o que é muito comum na esquizofrenia.
O autista tem um atraso mental, o esquizofrênico não.
Em resumo, o autista é bem mais comprometido e "difícil"
que o esquizofrênico. Esta diferenciação é
importante quanto ao tratamento, pois a criança com Autismo e atraso
no desenvolvimento evoluirá melhor com um tratamento combinando
terapia comportamental e educação especial. Já a
criança com esquizofrenia infantil, com alteração
do pensamento e afeto, responderá melhor a uma associação
de psicoterapia, medicação psicotrópica e terapia
ambiental.
Como é a abordagem escolar?
R - Com o advento de técnicas especiais de educação
para o deficiente mental, ocorreram mudanças dramáticas
na capacidade de aprendizado de crianças em geral e, em particular,
das crianças com deficiência mental. O enfoque atual é
fazer com que estas crianças aprendam conceitos básicos
para que funcionem o melhor possível dentro da sociedade. As escolas
especializadas, atualmente, individualizam o tratamento para cada criança,
tornando assim o aprendizado bem mais específico e eficiente.
Os autistas precisam de psicoterapia ou psicanálise?
R - De psicanálise não, uma vez que esta técnica
visa a explorar o inconsciente e as motivações que aí
ocorrem. Devido ao grau de lesão que apresentam, elas não
se beneficiam desta abordagem, não dispondo de capacidade cognitiva
para tal. Técnicas psicoterapêuticas, especialmente desenvolvidas
para o deficiente mental, têm sido muito úteis para as crianças
que apresentam problemas emocionais diversos. Esta abordagem visa a uma
reeducação, facilitando o contato interpessoal e ajudando-as
a aceitar melhor a problemática que têm, o que as levará
a funcionar mais adequadamente dentro da mesma. É importante, porém,
deixar bem claro que estas técnicas só funcionam quando
o profissional tem treinamento específico nas mesmas e se sente
motivado a ajudar. Além disto, o funcionamento intelectual cognitivo
específico destas crianças tem que ser levado em consideração
para se dimensionar adequadamente a terapia.
Existe tratamento?
R - Sim, e este vem evoluindo a cada ano que passa, não só
na área escolar como também médica. Em linhas gerais,
a abordagem destas crianças é semelhante à do deficiente
mental grave, usando-se técnicas comportamentais visando a induzir
uma normalização de seu desenvolvimento e lhes ensinando
noções básicas de funcionamento, tais como vestir,
comer, higiene etc. São utilizadas, também, técnicas
especiais de educação detalhadas em grande profundidade
neste livro. O uso de medicamentos, tentando normalizar processos básicos
comprometidos, está sendo investigado, como é o caso da
fenfluramine. O uso de medicação sintomática, para
tentar controlar melhor o comportamento destas crianças, tornando-as
mais fáceis de tratar com técnicas escolares e comportamentais,
está muito desenvolvido. O resultado final é muito mais
favorável, atualmente, do que há algum tempo atrás.
E os pais precisam de psicoterapia, psicanálise ou
orientação?
R - Os pais que têm filhos com problemas sofrem. Isto é
inevitável e sem exceção. E sofrem tanto mais quanto
maior for a problemática do filho, a dificuldade de tratamento,
a cronicidade do processo e também quanto maior for o seu nível
de sensibilidade. Este sofrimento precisa ser abordado não só
por razões humanitárias, mas, também, para que funcionem
melhor como pais de filhos com problemas. Em outras palavras, esta criança
precisa de ajuda de toda e qualquer ajuda e pais que tenham conseguido
melhorar o seu funcionamento poderão fazê-lo muito mais eficientemente.
Se isto não ocorrer, esta criança deficiente terá
pais lhe dificultando ainda mais a vida.
Em resumo, esta criança tem direito a pais saudáveis!!!
Uma terapia ajuda neste sentido.
O que o psicoterapeuta faz ou pode fazer pelos pais?
R - O profissional ajuda os pais a compreenderem, discutirem, entenderem,
além de trazer à tona sentimentos universalmente presentes
em todos aqueles que têm filhos com problemas, ou seja, negação,
culpa, frustração, impotência, ressentimento, raiva,
rejeição, além de fantasias diversas. Ele ajuda a
"trabalhar" estes sentimentos levando a uma aceitação
dos mesmos como algo normal e com isto desenvolve-se uma sensação
de alívio e de compreensão. Em resumo, de normalidade.
Somente um psicoterapeuta pode fazer este trabalho?
R - É claro que não. Uma pessoa realmente amiga, pais que
já passaram por algo parecido, uma professora com vivência
do problema, uma pessoa religiosa, por exemplo, podem ajudar e muito.
O importante é existir neste "ombro amigo" carinho,
compreensão e a capacidade de aceitar o sofrimento destes pais,
de lhes orientar objetivamente sem críticas pejorativas ou jogo
de culpa. A diferença destas pessoas para com o profissional é
que este foi treinado para isto.
Qual a diferença entre uma psicoterapia, psicanálise
e orientação?
R - Em linhas gerais, todas são técnicas que visam a ajudar
um indivíduo, cada uma tendo as suas vantagens e limitações.
Existem formas diversas de psicoterapias com "linhas" ou "escolas"
diferentes, sendo a psicanalítica a mais divulgada e predominante
no nosso meio. Poderíamos situar a psicanálise e a orientação
em extremos opostos. A psicanálise, resumidamente, exige que todo
o trabalho seja feito pelo paciente, que ele desenvolva uma capacidade
de introspecção e auto-análise e que ele conduza
a sua terapia trazendo temas e problemas. Já a orientação
é direta e objetiva, visando, especificamente, aos problemas dos
pais, "orientando-os" no manejo do dia-a-dia do filho, ensinando-lhes
como lidar com situações variadas. Em resumo, de um lado
a descoberta por si só, de outro o ensino, utilizando-se as mais
diversas psicoterapias. O ideal seria que o terapeuta conhecesse e soubesse
usar todas as técnicas ajudando, assim, mais abrangentemente o
seu cliente. Em outras palavras, em vez de vender roupas prontas nas quais
o freguês talvez não caiba, o bom seria o terapeuta ser um
alfaiate que pudesse desenvolver uma terapia "sob medida", pois
"cada caso é um caso" e apesar de semelhanças
e generalidades o ser humano é único e exclusivo. O tratamento
também deve ser assim.
Do ponto de vista medicamentoso o que existe de objetivo
para tratar os autistas?
R - Infelizmente, ainda não existe nenhum medicamento específico
para tratá-los, mas pesquisas diversas têm trazido resultados
encorajadores como é o caso da fenfluramine, droga que interfere
diminuindo o nível de serotonina, um neurotransmissor cerebral.
Se ela se mostrar realmente eficaz, será o primeiro tratamento
neurofarmacológico específico nesta entidade. Existem outros
medicamentos não específicos, como os antipsicóticos
ou tranqüilizantes maiores, como a thioridazine (Melleril), clorpromazina
(Amplictil), halloperidol (Haldol), que atuam controlando certos sintomas
de auto-agressão, acessos de raiva descontrolado e tornando a criança
mais calma e manejável. Isto aumenta, indiretamente, o seu potencial
de aprender e se desenvolver.
Não existe a possibilidade destas medicações
sedarem ou doparem a criança?
R - Sim, se forem usadas excessivamente ou em doses altas demais, ou
seja, inadequadamente. Conforme já foi dito, o uso de uma medicação
do tipo "tranqüilizante maior" visa a exclusivamente controlar
um certo comportamento como a agressividade, tornando a criança
mais fácil de ser tratada por outras técnicas. A dosagem
deve ser suficientemente alta para conter este comportamento e ao mesmo
tempo baixa evitando a sedação, pois estando dopadas não
se beneficiarão destas novas técnicas.
Qual a maneira adequada de utilizar certas medicações?
R - Os termos medicamentos "antipsicóticos" ou "tranqüilizantes
maiores" são sinônimos. Os bons resultados dependem
muito mais de quem os usa do que do tipo ou marca utilizada. O mais usado
nos grandes centros é a thioridazine (Melleril) que no nosso meio
vem apenas em comprimidos de 50 mg. Usa-se um a dois comprimidos por dia,
inicialmente, observando-se a resposta terapêutica. Se não
ocorrerem melhoras, aumenta-se a dosagem gradualmente de 50 mg de dois
em dois ou três em três dias, podendo-se chegar a 400 mg por
dia em uma criança de quatro a seis anos. Obviamente se tentará
evitar, conforme já foi citado, efeitos colaterais desagradáveis,
como sedação excessiva. É importante, também,
ressaltar que a utilização de uma dosagem baixa sem os efeitos
terapêuticos desejados é fútil, pois o paciente estará
sujeito aos efeitos colaterais da medicação sem se beneficiar
da mesma. De tempos em tempos, cerca de seis em seis meses, a redução
da dosagem deve ser tentada, verificando-se a possibilidade de continuar
o tratamento sem a utilização de medicamentos. Em outras
palavras, quando utilizar uma medicação isto deve ser feito
corretamente. Outra observação importante é o uso
concomitante de outras abordagens ou técnicas que, se usadas adequadamente,
tornarão a medicação mais eficiente.
O que os pais podem fazer de objetivo para ajudar o seu
filho ou a si próprios?
R - Inicialmente, apesar de todo o sofrimento emocional eles devem encarar
e enfrentar o problema de frente. Como? Procurando ajuda profissional
especializada, competente, atualizada e séria. Como eles podem
avaliar isto? Perguntando, solicitando informações de outros
e, obviamente, também do profissional. Em outras palavras, nada
de cerimônias. Está em jogo o tratamento do seu filho. Além
disto, devem estar em contato com outros pais para troca de experiências
e vivências e com isto evitar a repetição de dificuldades,
erros ou problemas. A criação de uma Associação
de Pais e Amigos de Crianças Autistas tem surtido bons efeitos
em outros países, e à semelhança da APAE (Associação
de Pais e Amigos do Excepcional) pode permutar conhecimentos, pesquisas
e avanços nesta área. É crucial uma informação
adequada dos pais sobre esta doença. Estas associações
dão também uma sensação de coesão e
meta, com isto podendo-se pressionar órgãos governamentais
visando aos interesses destas crianças. Pode-se, também,
levantar fundos junto a empresas e pessoas físicas para ajudar
os menos favorecidos. A vantagem global da participação
dos pais nestas atividades é que isto lhes dá a sensação
de estar fazendo algo e não apenas esperando alguém fazer
algo por eles. Isto lhes mitiga a sensação de impotência
e inadequacidade. Também é importante a publicação
de literatura específica e periódica, assim como o convite
de especialistas para a troca de vivências e atualização.
Estas crianças são ou podem ser felizes?
R - Todo ser humano tratado com carinho, amor e respeito sente-se querido
e amado e, conseqüentemente, é feliz. Estas crianças
não são exceção. As dificuldades que têm
causam certos empecilhos para obter carinho, amor e respeito, mas se o
adulto souber redimensionar a sua escala de valores estas crianças
se tornam tão queridas quanto qualquer outra e serão felizes.
Os pais, por sua vez, passarão a vivenciar esta mesma sensação.
O inverso também é verdadeiro. Pais saudáveis e bem
equacionados, que souberam reavaliar expectativas e sonhos em relação
ao filho, poderão ser felizes e com isto lhes transmitir esta sensação.
Em resumo, pais de autistas podem ser bem ajustados, satisfeitos consigo,
estar de bem com a vida e ensinar isto ao seu filho que lhes retribuirá
esta sensação.
Como evoluem estas crianças?
R - O Capítulo Revisão Crítica da Literatura discute
este aspecto em detalhe e merece especial atenção, uma vez
que este assunto é pouco discutido com os pais.
Qual é o prognóstico destas crianças?
R - Exatamente por esta questão ser básica para os pais
e familiares de autistas transcrevemos os trabalhos mais atuais sobre
este assunto, assim como o pensamento dos maiores pesquisadores nesta
área, na parte inicial deste livro. Não faço um resumo,
pois "cada caso é um caso" e é fundamental os
pais terem um bom e sólido conhecimento teórico sobre esta
síndrome.
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